Action Learning: uma prática andragógica

10-Oct-2016

 

"Ensinar não é transferir conhecimento,

mas criar possibilidades para a sua produção ou a sua construção."[1]

Paulo Freire

 

Fui uma estudante bastante aplicada e, como tal, sempre soube perfeitamente bem o meu papel: entender o conteúdo que os professores estavam expondo e reproduzi-lo sob demanda para “provar” o aprendizado.

Este processo foi sendo repetido por anos a fio e começou a dar sinais de “mau funcionamento” quando cheguei à universidade e minhas perguntas pareciam incomodar os mestres. Com a experiência profissional, a coisa piorou: a cada curso que eu fazia, a cada aula expositiva, minha dificuldade de permanecer atenta e acordada (!) se apresentava como obstáculo a ser superado.

Por que ao planejar suas aulas meus professores não aproveitavam a vasta experiência dos alunos? Por que nossos objetivos de aprendizagem não eram levados em consideração e estavam sempre em segundo plano, pois o objetivo do professor era “dar a matéria” do “conteúdo programático”? Por que por inúmeras vezes fui aluna em cursos que nos solicitavam leitura prévia apenas para descobrir que todo o conteúdo que eu havia lido seria repetido pelo professor em sua exposição?

Eu senti “na pele” (e, provavelmente, você também) o efeito de um modelo convencional de educação. Este modelo vem sendo objeto de análise de vários estudiosos da aprendizagem há muito tempo. Eduard Lindeman já fazia em 1926 uma distinção relevante sobre a educação convencional e de adultos: “Em uma turma de adultos, a experiência do aluno conta tanto quanto a do professor... Na educação convencional, os alunos se adaptam ao currículo oferecido, mas na educação de adultos os alunos ajudam a elaborar os currículos... a autoridade pertence ao grupo.”[2] Suas ideias influenciaram o trabalho de Knowles que, em 1973, publicava a primeira edição de “The Adult Learner”, elencando os princípios do que convencionamos chamar de andragogia:

  • Para adultos, a motivação para a aprendizagem surge da necessidade a partir de suas vivências. Desta forma, a organização de atividades de aprendizagem deve ter, como ponto de partida, um desafio ou problema real que precisa ser enfrentado.

  • O conteúdo programático de cursos para adultos não deve ser desenvolvido em torno de temas como estamos acostumados a ver na educação tradicional, mas sim em torno de situações da vida, uma vez que o foco da aprendizagem de adultos é a aplicação prática do conhecimento adquirido.

  • Para aprender, o adulto relaciona o conhecimento novo à experiência que acumulou ao longo dos anos. Por isso, a experiência deve ter papel central em qualquer metodologia que tenha por objetivo essa aprendizagem.

  • O adulto tem necessidade de se autodirigir. Sendo assim, o papel do “professor” é provocar a reflexão e o diálogo, para que o grupo vá construindo seu conhecimento.

  • Com o passar dos anos, as diferenças entre as pessoas se intensificam. Daí a relevância de planejar-se atividades que permitam e estimulem a participação de todos, respeitando suas diferenças.[3]

Os praticantes de Action Learning já devem ter percebido alguns pontos de intersecção entre essa metodologia e a abordagem andragógica. Vamos analisar cada componente do Action Learning frente aos princípios de aprendizagem de adultos.

 

O Problema

Não há Action Learning sem um problema, desafio ou projeto para o qual não existe uma solução óbvia ou conhecida.

Do ponto de vista da abordagem andragógica, o aprendiz adulto direciona seu interesse por aprender a partir de desafios e de situações da vida para as quais não tem uma resposta pronta. Na escola e na faculdade, infelizmente para nós, nossos professores não tinham o hábito de perguntar que dificuldades estávamos enfrentando a fim de nos mostrar como determinada disciplina poderia nos ajudar a resolver essas situações.

Ao convidar os participantes para compartilhar problemas reais, urgentes e importantes, o Action Learning dá foco ao que querem aprender, criando condições para que conhecimentos armazenados e experiências vividas sejam o trampolim para a geração de novos conhecimentos.

 

O Grupo

A solução de problemas é mais fácil quando contamos com outras pessoas e acessamos a inteligência coletiva. Quanto mais diverso o grupo de participantes de Action Learning, melhores serão as condições para exploração de vários pontos de vista, o que possibilitará que a solução encontrada seja muito mais completa e assertiva.

O grupo é recurso importante para a aprendizagem de adultos pois, por meio das experiências que seus membros trazem e compartilham uns com os outros, é possível catalisar a aprendizagem. Para Paulo Freire, o grupo de aprendizes adultos é conhecedor de seu contexto, de sua realidade e, portanto, a sua experiência é base para entender outras realidades.

Acessar a inteligência coletiva não era algo possível quando nossos professores consideravam suficiente palestrar sobre os temas em que eram especialistas.

 

Perguntas e Reflexão

Em Action Learning a ferramenta de trabalho (para definição do problema, exploração do contexto, geração de alternativas, desenvolvimento da escuta ativa e definição da estratégia de ação) são as perguntas. As perguntas estão no centro da estratégia de aprendizagem individual, de times e de organizações.

Paulo Freire identifica o papel central do processo dialógico na construção de significados, e os princípios da andragogia ressaltam que o aprendiz é autodirigido; portanto, ao fazer uso de perguntas e questionar pressupostos, ele conduz e direciona seu próprio aprendizado.

As perguntas liberam o potencial criativo dos participantes de Action Learning, permitindo que encontrem caminhos inovadores para os problemas discutidos. Quanto mais genuínas e abertas forem as perguntas (perguntas sem uma hipótese ou julgamento prévio), mais oportunidade de aprendizagem para todos.

Isto me faz lembrar uma professora que tive no antigo colegial (ensino médio). Ela entrava, falava por 45 minutos e saía. E nós, alunos, não tínhamos qualquer possibilidade de interagir, perguntar, esclarecer dúvidas ou sequer relacionar o novo conteúdo com conteúdos prévios. Nem é preciso dizer que não me lembro de nada que eu tenha “aprendido” com ela.

 

Ação

Até que um aprendizado seja colocado em prática, não se tem certeza de que houve aprendizado. Sendo assim, a ação é parte fundamental do processo de aprendizagem em Action Learning. Ao colocar em prática as ações definidas, os participantes de Action Learning têm elementos importantes para alimentar o processo de reflexão e aprimorar seu entendimento.

Bem que aquela professora do colegial poderia ter proposto formas mais participativas e que nos possibilitassem ter papel ativo na aprendizagem. Quem sabe, se alguma ação estivesse envolvida, eu não seria capaz de me lembrar de algo...

A abordagem andragógica coloca a experiência do aprendiz no centro do processo de aprendizado. Kolb[4] identifica, em seu ciclo de aprendizagem vivencial, a etapa de experimentação dos novos conhecimentos como fundamental para consolidação do aprendizado, uma vez que testa, na prática, as hipóteses geradas a partir da observação da experiência e da abstração sobre ela.

 

Aprendizagem

Em Action Learning a resolução do problema central não é mais importante que a aprendizagem de indivíduos, grupos e organizações.

Os participantes de Action Learning praticam escuta ativa, pensamento divergente, aprofundamento do problema, abertura para novos pontos de vista, pensamento objetivo, entre várias outras competências relevantes para seu sucesso em contextos cada vez mais complexos. A empatia, elemento fundamental da aprendizagem na teoria humanista, é um dos subprodutos do processo, que ainda traz o benefício de facilitar o trabalho em equipe.

Segundo o humanista Carl Rogers[5], “se há uma única verdade sobre o homem moderno, é que ele vive em um ambiente que está sempre mudando”. Talvez esta seja a razão pela qual teóricos do cognitivismo defendem que o mais importante é “aprender a aprender”, competência que é praticada por meio do Action Learning.

Eu não sei se vocês tiveram a mesma experiência que eu, mas “aprender a aprender” só aconteceu quando eu já estava no mercado de trabalho e não tinha ninguém para me “ensinar” como resolver os problemas do dia a dia.

 

O Coach

O papel do coach de Action Learning é o de um guardião do processo que, sempre por meio de perguntas, acelera a aprendizagem do grupo, fazendo com que os participantes reflitam sobre a qualidade de suas perguntas, a efetividade do processo, a aderência às regras e a aprendizagem. O coach em Action Learning funciona como um modelo de escuta, de foco em aprendizagem e da habilidade de formular perguntas. Já a maioria dos professores que tive ao longo da vida só formulava perguntas para a prova.

Assim como um facilitador andragógico, seu papel é fomentar um ambiente favorável à aprendizagem e comunicar sua crença no poder do grupo para resolver o problema - ainda que de forma sutil, por meio de seu próprio comportamento. É seu papel, como também o é para um facilitador andragógico, ler os sentimentos e o clima do grupo e, empaticamente e por meio de perguntas, jogar luz sobre essas questões.

O facilitador andragógico pode assumir outros papéis que não se aplicam ao coach de Action Learning, mas existe uma intersecção importante entre os dois.

 

Aplicação Prática

Recentemente fui convidada a ministrar um workshop em um programa de formação de instrutores de base humanista.

Como por quase quinze anos estive envolvida diretamente na formação de educadores, tanto na rede pública quanto privada (cursos livres), e nesse período pautei as oficinas e encontros nos meus aprendizados em Reflective Learning durante o mestrado em educação de adultos nos EUA, propus uma abordagem vivencial: eu conduziria uma sessão de Action Learning com os futuros instrutores e, a partir dessa experiência concreta, observaríamos em que medida a metodologia estava alinhada aos princípios andragógicos e à visão de Carl Rogers.

A sessão de Action Learning foi bastante produtiva e os participantes ficaram muito animados com a oportunidade de tangibilizar vários dos conceitos que vinham estudando em uma única atividade. Depois da etapa de aprendizados da sessão, conduzimos uma meta sessão para debater os princípios andragógicos e como cada um viu esses princípios se manifestando ali.

Os participantes identificaram os princípios de aprendizagem de adultos na sessão, o que levou à conclusão que, de fato, a metodologia de Action Learning é andragógica em sua essência.

A educação convencional nos convida a, passivamente, “estocar” informações que, um dia, quem sabe, nos possam ser úteis.

Por outro lado, a abordagem andragógica, exemplarmente colocada em prática por meio do Action Learning, faz do aprendiz o protagonista de seu processo de aprendizagem.

Minha experiência como aprendiz e como facilitadora reforça continuamente a crença de que só aprendemos quando este aprendizado está a serviço dos desafios que estamos enfrentando.

Para este objetivo, Action Learning.

 

 

 

[1] Freire, P.(1996) Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo : Paz e Terra, p. 25.

 

[2] Lindeman, E. C. (1926) The meaning of Adult Education. New York. New Republic.

 

[3] Knowles, M. S.; Holton III, E.F.; Swanson, R. A.(2009). Aprendizagem de resultados. Rio de Janeiro. Elsevier.

 

[4] Kolb, D. A. (1984). Experiential learning. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, Inc

 

[5] Rogers, C. R. (1969) Freedom to learn. Columbus, OH. Merril.

 

Sobre a autora:

Luciana Rovegno é educadora atuando há 20 anos como coach, mentora, facilitadora em programas de desenvolvimento, bacharel em administração de empresas (FEA USP), Mestre em Educação de Adultos pelo SIT (EUA), qualificada MBTI e DISC, MBA em Marketing de Serviços (ESAMC) e uma uma CALC , Certified Action Learning Coach, assumidamente fã da metodologia  metodologia.

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