Comunicação e pertencimento com Action Learning

Projeto social conduzido por Coaches da WIAL Brasi

"Eu adoro essa metodologia, é simples e direto ao ponto, é prática. Por isso batalhei tanto para trazer pra cá. A metodologia funciona, a gente não fica um tempão falando e reclamando do problema, vai lá e resolve. Nossa casa mudou depois da entrada do Action Learning." Maria Beatriz Calazans - membro da diretoria da instituição.

Sobre a Wial Brasil

A WIAL (World Institute for Action Learning) é uma organização internacional dedicada a promover em todos os setores o Action Learning, uma metodologia de resolução de problemas e desenvolvimento de habilidades de liderança e comunicação.

Em 2015 criou-se internacionalmente a Better World Found que visa oferecer serviços para as comunidades ao redor do mundo aplicando Action Learning. A WIAL cria parcerias com as instituições, envolvendo-os de forma a ajudar estas organizações a identificarem soluções diferenciadas e criativas para os desafios reais vividos. 

No Brasil temos atuado com o mesmo objetivo junto às instituições selecionadas, para um trabalho em conjunto, utilizando o trabalho voluntário dos Action Learning Coaches certificados e capacitados para aplicação da metodologia. 

Esses trabalhos também ajudam a WIAL no Brasil a exercer sua missão de compartilhar pesquisas, estudos de casos com a prática de Action Learning e a promover maior sinergia entre os Coaches envolvidos, promovendo um maior senso de comunidade. 

Instituição Saica Grossal 

Fundada por uma comunidade Alemã, a Instituição Saica Grossal faz parte do Centro da Criança e do Adolescente - CCA/SEMEAR que atende cerca de 70 crianças e adolescentes (06 a 14 anos) por ano em situação de vulnerabilidade e risco, contribuindo na sua proteção integral em conjunto com a família e Estado, promovendo o desenvolvimento de suas potencialidades, a partir de ações sócio educativas. 

Com cerca de 20 profissionais, especificamente no SAICA GROSSAL, atendem cerca de 30 crianças em acolhimento institucional, tendo como principal objetivo acolhe-las até que tenham sua guarda restabelecida pelo Estado. Atualmente operam com verba de um convênio com a prefeitura onde cerca de 70% dos recursos são para destinados à folha de pagamento, porém também recebem doações de outras pessoas, famílias, empresas etc. 

Algumas crianças podem ser adotadas, porém com 18 anos precisam sair da casa e a partir dos 16 anos de idade já começam a receber ajuda para o processo de transição e a trabalhar para se preparar para a saída.   

Sobre o projeto 

A coordenadora da casa procurou a Wial Brasil com a intenção de promover os encontros com os colaboradores. A grande queixa era que era necessário trabalhar comunicação e senso de equipe, pois os colaboradores trabalhavam de forma muito individual, não compartilhavam com a gestão os problemas do plantão e suas dificuldades. 

Seu desejo era que as crianças que moram lá pudessem se sentir morando em um lar de verdade, uma casa, onde elas se sentissem parte, que não fossem vistas como um número. Ela gostaria que os colaboradores estivessem preocupados com a individualidade de cada criança, como celebração de aniversário e problemas individuais, fazendo parte de uma família, lugar para chorar, conversar, brigar - “enquanto você estiver aqui esse é o seu lugar”.

Contudo, os colaboradores precisavam trocar mais suas questões, com menos intrigas e fofocas, maior comunicação entre a equipe técnica e a operacional. Ficou claro para a coordenadora da casa que durante as reuniões internas entre colaboradores havia medo da hierarquia e seu desejo era colocar todos no mesmo patamar, estimulando a postura de que se existisse um problema, juntos poderiam solucionar.  

Nunca havia sido feito nenhum programa de desenvolvimento para os colaboradores da casa e a coordenadora estava animada com essa perspectiva.  

Para tanto, estruturou-se um projeto considerando oito sessões de Action Learning de duas horas cada, as reuniões aconteceriam em períodos distintos – manhã e tarde – para contemplar o maior número de colaboradores possível. Foram convidadas, pela coordenadora do projeto, quatro coaches que já haviam demonstrado interesse por projetos sociais, que conduziriam duas reuniões cada. 

Devido a rotatividade de colaboradores entre uma reunião e outra, tomou-se o cuidado de explicar do que se tratava a metodologia e alguns exercícios de quebra-gelo ou de perguntas foram aplicados no início de cada reunião. 

 Coaches participantes do projeto:

  • Magali Lopes: Psicóloga e Especialista em dinâmicas grupais com mais de 15 anos de experiência corporativa em RH em empresas multinacionais. É coach membro da ICF (International Coach Federation) e cofundadora da Eight∞ Coaching e diretora de stakeholders da WIAL Brasil. (Também coordenadora do projeto). 

  • Maria Carolina Mateus​: Facilitadora de Aprendizagem e especialista em desenvolvimento de soluções educacionais, com 15 anos de experiência em Educação Corporativa, Desenvolvimento Humano e Formação de Facilitadores. É coach membro da ICF (International Coach Federation), Professional Action Learning Coach e membro da diretoria da WIAL Brasil. 

  • Paula Moreno:  Graduada em Propaganda e Marketing com MBA em gestão de negócios, com 17 anos de experiência na área comercial em veículos de comunicação, experiência em liderança e formação de equipes comerciais, gestão de pessoas e gestão de negócios. Em formação Coaching Holístico pelo Instituto Ibraphema UNIFESP e Especialização em MTC e Coaching Holístico. 

  • Paula Vallilo: Coach, Psicóloga com 17 anos de atuação em gestão de equipes, desenvolvimento humano e organizacional. Especialista em Psicologia Organizacional e Clínica, atua com projetos de carreira e grupos.

Antes das sessões iniciarem, foi realizada uma reunião com a coordenação da casa, coordenadora do projeto pela WIAL e a presidente da WIAL. Foi pontuado um cronograma de compromissos, sendo eles: 

  • Ter um relacionamento aberto e de confiança;Oferecer e estar aberto para receber feedback franco e sincero; 

  • Fazer avaliações constantes do trabalho ou sempre que solicitado; 

  • Manter frequência dos encontros;

  • Assegurar pontualidade nos horários de início e término dos encontros.

Principais resultados 

Cerca de 20 profissionais do SAICA (coordenadoras, orientadores educacionais, assistente social, psicóloga, cozinheira, auxiliar de cozinha e ajudante geral) participaram das sessões, distribuídos em grupos de até 8 participantes.

As sessões iniciavam com uma atividade de aquecimento (quebra-gelo) a fim de que o grupo se conectasse e entrasse em estado de prontidão para a sessão. Como uma das necessidades iniciais do projeto era desenvolver o trabalho em equipe, essas atividades também se mostraram oportunidades de realizarem algo juntos que extrapolasse as atribuições de suas funções na casa.

Após essa atividade, eram identificadas as ações que haviam sido colocadas em prática como resultado da sessão anterior, quais os obstáculos e ganhos no percurso e um novo problema era definido para a sessão.

Os problemas trabalhados durante as sessões foram assim definidos pelos participantes:

  • Problema com uma pessoa da equipe pela fofoca que foi gerada envolvendo a colaboradora.

  • Falta de comunicação na relação profissional.

  • Ter autonomia para a tomada de decisão e ser respeitada.

  • Falta de empatia.

  • Problemas na comunicação da equipe.

  • Falha na comunicação entre turnos.

  • Falta de organização e cumprimento de regras.

  • Como trabalhar em equipe.

As ações definidas para serem colocadas em prática pelos apresentadores dos problemas, como resultado das reuniões foram:

  • Ouvir mais e falar menos.

  • Colocar-se no lugar do outro.

  • Realizar conversas com a colega de plantão para ter maior alinhamento em relação as liberações, tendo como premissa que se um falar não, a ação não será tomada.

  • Se impor mais diante das falhas de comunicação. Falar mais o que sente.

  • Melhorar a escuta, intensificar diálogo com todos, não enxergar os problemas da casa como pessoal, ter olhar flexível diante das situações e se atentar a anotar mais as informações.

  • Leitura diária da ata pela coordenadora e pela equipe técnica.

  • Garantir que o registro do livro seja feito de forma completa, por meio de influência da equipe técnica, em reuniões e acompanhamento direto.

  • Na reunião quinzenal, levar os principais temas do livro, esclarecer dúvidas.

  • Feedback em duplas de plantão e, depois, feedback individual.

  • Retomar as conversas individuais, partir para a dupla (originária do problema) e então conversar com o grupo todo para alinhamento.

Durante as sessões, as habilidades trabalhadas foram: responder de forma objetiva, paciência, ouvir profundo, perguntas poderosas, manter o foco, controlar a ansiedade, fazer perguntas objetivas, escuta ativa, presença consciente, valorização das diversas percepções, coragem, colaboração e presença ativa.

Os principais aprendizados citados pelos apresentadores dos problemas foram:

  • Ouvir mais e me fazer ouvir.

  • Expor os problemas para os colegas de trabalho e ouvir de forma mais empática.

  • Como é importante o diálogo para construção de uma solução.Como é importante a gente falar, colocar para fora, conversar.

  • Importância em entender as pessoas, o que elas estão realmente querendo dizer. Fundamental envolver toda a equipe para consenso. Cada um tem uma concepção do seu fazer, é importante todos saberem a importância de todas as atividades/funções.

Os principais aprendizados relatados pelos demais participantes foram:

  • Sempre bom se desenvolver assim, a gente cresce como pessoa.

  • A vida está muito individualista, é importante sair do cotidiano. Foi como se fosse um descarrego mental. A importância de conversar com o outro de ouvir e ser ouvido. 

  • Importância da conversa e trocar experiências.

  • Cada um tem um olhar diferente para o problema e lida com isso de uma forma. Não se pode diminuir o outro, é preciso encontrar caminhos para solucionar o problema.

  • Sempre ouvir o outro antes de tomar uma decisão.

  • Se posicionar perante o outro, independente da opinião do outro - sustentar a opinião.

  • Consciência de que a mudança do outro não depende de mim. 

  • Ouvir profundo e ter escuta mais atenta.

  • Não sair com dúvida de nada. Esclarecer.

  • Como é importante o diálogo para construção de uma solução.

  • Conversamos de igual para igual, sem hierarquia, isso facilita.

  • Aqui pudemos falar de forma transparente, podemos fazer isso também lá fora.

  • Retomar o que é essencial e que, às vezes, a gente esquece - conversar, dialogar.

  • Em grupo, a gente resolve melhor.

  • Como é potente trabalhar com perguntas. Já é a segunda vez que venho determinada a não falar, só ouvir, ficar na minha, mas as perguntas me fazem querer compartilhar, me provocam.

  • Ouvir, respeitar o próximo a cada encontro.

  • Importância de saber elaborar perguntas para a vida, perguntas abertas e fechadas, para mediação, conflitos.

  • Importância em se fazer a pergunta certa.

  • Saber ouvir/ entender o que o outro está dizendo.

  • Importância em saber fazer perguntas no lugar de críticas.

“Eu me senti muito ajudada, pude desabafar, falar de uma coisa muito importante para mim que há tempos queria ter falado e fui ouvida. Me senti respeitada. Aprendi como é importante a gente falar, colocar para fora, conversar” (participante que apresentou um problema)

Considerações finais 

Os resultados nos mostram que os objetivos iniciais do projeto foram alcançados.

Depoimentos como “Sempre ouvir o outro antes de tomar uma decisão”, “Como é importante o diálogo para construção de uma solução” e “Em grupo, a gente resolve melhor” evidenciam uma ampliação de consciência sobre o valor da prática da comunicação aberta e assertiva e uma valorização do trabalho em equipe.

Com relação ao medo da hierarquia relatado pela coordenadora no início do projeto, os participantes puderam experimentar uma forma de solucionar problemas na qual todos tem o mesmo peso para a tomada da decisão. Não existe hierarquia no Action Learning e os participantes perceberam o valor de se trabalhar assim, o que ficou evidenciado no depoimento “Conversamos de igual para igual, sem hierarquia, isso facilita. Aqui pudemos falar de forma transparente, podemos fazer isso também lá fora”.

"Gostaria de agradecer a oportunidade que tivemos aqui em aprender a ouvir e fazer perguntas para nos entendermos cada vez mais. Quero que este projeto continue, é muito importante para nós". Rosangela – Coordenadora do SAICA

*Magali Lopes​ - Psicóloga e Especialista em dinâmicas grupais com mais de 15 anos de experiência corporativa em RH em empresas multinacionais onde implementou processos de desenvolvimento e gestão em vários países como Índia, China, Espanha e EUA além do Brasil. É coach membro da ICF (Internation Coach Federation) e cofundadora da Eight∞ Coaching e diretora de stakeholders da WIAL Brasil. **Maria Carolina Mateus - ​Coach, Consultora Especialista em Desenho de Soluções Educacionais e Facilitadora de Aprendizagem, com 15 anos de experiência em Educação Corporativa, Desenvolvimento Humano e Formação de Facilitadores. Atua em processos de desenvolvimento da liderança, team building, coaching executivo e Action Learning.

Fotos: Ana Paula Moreno

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