Como diversas teorias se “encontram” em Action Learning

Quando conheci Action Learning, em 2009, ainda como participante, fiquei absolutamente entusiasmada por sua simplicidade e ao mesmo tempo, pelo poder que esta metodologia tem para mobilizar pessoas a buscarem seu melhor no grupo e resolver problemas de maneira elegante, harmoniosa e efetiva. Busquei então estudar, conhecer e me certificar nesta abordagem.


Desde então, está incorporada em minhas atividades profissionais e vida pessoal. Costumo dizer que Action Learning é muito mais que uma metodologia. Trata-se de um “Jeito Action Learning de Ser”, que incorpora valores como: apreciação, crença no desenvolvimento das pessoas e na capacidade de um grupo para encontrar suas próprias soluções, humildade.


Quero fazer aqui uma analogia sobre esta palavra: existe uma relação entre humildade e húmus – o que está perto do solo, da terra. Este significado, perto da terra, próximo da essência, pode nos levar a pensar que a atitude humilde – requerida para o Action Learning Coach e desenvolvida pelos integrantes do grupo – é o terreno fértil onde as sementes – as perguntas – serão lançadas, germinadas e frutificadas. Este aspecto é uma das razões para compreensão sobre o poder de Action Learning: resolver problemas, desenvolver competências pessoais, grupais e organizacionais, construindo uma cultura de inovação.


Mas afinal, o que é Action Learning? Para os leitores que ainda não conhecem, trago uma sucinta definição: trata-se de uma metodologia de solução de problemas que, ao mesmo tempo, desenvolve habilidades de liderança. É realizada com um pequeno grupo, de 4 a 8 pessoas, conduzida por um Coach treinado e certificado, que tem o papel de estimular o melhor desempenho deste grupo. Declarações são feitas somente em resposta a perguntas – esta é uma regra. A pergunta mantém as pessoas no foco, desperta um olhar diferente para soluções criativas e estimula conexão entre as pessoas. Ao final de cada sessão, que dura em média 90 minutos, pelo menos uma ação é endereçada para resolver o problema e há uma reflexão sobre a aprendizagem individual, do grupo e organizacional. Estes são os seis elementos do modelo WIAL Action Learning (Figura 1).

Figura 1 – Os 6 componentes de Action Learning

E você pode perguntar: por quê Action Learning funciona tão bem?

Ela combina diversas teorias e abordagens, além da experiência empírica e acadêmica do criador do modelo WIAL Action Learning, Michael Marquardt, professor e consultor americano. Esta combinação forma um alicerce integrado que suporta sua eficácia e simplicidade.


Da Administração, vieram os principais conceitos de pensadores como Collins, Drucker, Peters, Maslow, McGregor e McClelland, além de Bertalanffy, Senge, Morin, Bauman. Quem já estudou a Teoria Geral de Administração, certamente lembra da evolução dos modelos de gestão, desde a revolução industrial, com a Administração Científica, até a pós modernidade. Cada um dos modelos deixou sua contribuição e foram incorporados na abordagem do modelo WIAL Action Learning. Por exemplo, a Escola das Relações Humanas, que enfatizou a correlação entre valorização e produtividade, a partir da necessidade que as pessoas têm de serem ouvidas e participar dos grupos às quais pertencem no ambiente laboral. Esta necessidade é considerada e atendida nas reuniões de Action Learning, pois todos os integrantes participam, são ouvidos e se expressam, porque a estrutura da metodologia garante esta participação.


Outro exemplo é a teoria sociotécnica, pioneira na mudança de ênfase, considerando o papel de grupos, como a unidade primária de análise e não o indivíduo. Foi criada por Trist e Emery, baseada em seu trabalho com os trabalhadores nas minas de carvão inglesas no Instituto Tavistock, em Londres. Reg Revans, considerado o “pai” da Action Learning, foi contemporâneo e viveu nesta cidade, aplicando pela primeira vez a metodologia nas minas de carvão. Portanto, a influência desta abordagem foi direta e seminal para a metodologia. A teoria sociotécnica destacou que questões relativas à coesão da equipe são responsáveis por sua eficácia. Atualmente, os estudos de times de alta performance, como o utilizado no Google, desenvolvido pela professora Amy Edmondson, que aborda a importância da segurança psicológica, ou o modelo de Patrick Lencione, no qual a confiança é a base para desenvolvimento de equipes funcionais. Certamente foram evoluções desta base. Qual a relação com Action Learning? A cada sessão de Action Learning, a confiança aumenta e as pessoas sentem-se seguras psicologicamente para se expressar, trazer problemas, ouvir e serem ouvidas


Da Educação, Action Learning utiliza e integra as cinco escolas da aprendizagem de adultos: comportamental, cognitiva, humanista, construtivista e de aprendizado social. Action Learning apoia-se fortemente nos princípios da Andragogia, principalmente na crença de que o grupo é soberano e tem as respostas para seus problemas, evidenciada no tipo de intervenção que o Action Leaning coach faz para aumentar sua consciência sobre o processo, visando desenvolver as habilidades de liderança do grupo.


Da Psicologia, utiliza conceitos das abordagens individual, de grupo, social e organizacional, incluindo as teorias de Skinner, Jung e Rogers. Este, criador da ACP – Abordagem Centrada na Pessoa, tem um princípio básico segundo o qual a melhor maneira de uma pessoa se desenvolver é confiar no seu potencial e na sua condição natural de pensar, sentir, buscar e se direcionar no caminho de suas necessidades. Segundo Rogers (1959), “Todo organismo é movido por uma tendência inerente para desenvolver todas as suas potencialidades de maneira a favorecer o seu enriquecimento”. A partir deste pressuposto, chamado de “Tendência atualizante”, derivam as condições que são facilitadoras na relação para que a pessoa ou grupo se auto dirija, ampliando assim o seu repertório interno e buscando novas formas de se atualizar, obtendo mais condições de encontrar maior harmonia interna e, em consequência, uma maior harmonia com o seu meio. Esta é uma das crenças fundamentais no modelo WIAL Action Learning e o Coach atua a partir desta atitude.


Da Dinâmica de grupo, Action Learning incorpora os conceitos relativos a gestão de conflitos, comunicação, processo decisório e desenvolvimento de estratégias de ação. O duplo diamante utilizado no Design Thinking, é um exemplo de modelo mental presente numa sessão de Action Learning, com a fase divergente, criativa, de abertura, característica do estágio da exploração do problema, fechando para a fase convergente da busca de solução e ações, após o consenso.


Outro exemplo é o modelo de Tuckman, que descreve os estágios de desenvolvimento de pequenos grupos voltados a tarefa: forming storming norming e performing. Em Action Learning, o grupo passa por estas fases de forma acelerada, exceto a etapa de storming, pois não há discussão, os problemas são trazidos à tona e debatidos à exaustão, preservando as pessoas, que não se confrontam.


O mais representativo autor foi Kurt Lewin, cujas pesquisas trouxeram contribuições sobre o conceito de tensão e campo de forças, por exemplo. Estes elementos estão presentes em Action Learning no pressuposto que o problema deve ser real, importante e urgente o suficiente para gerar uma tensão que o movimente rumo à solução.


Da Sociologia, que se ocupa com o estudo dos grupos humanos e como as relações sociais se desenvolvem, Action Learning evidencia o elemento grupo, e como as relações podem ser ressignificadas a partir de suas duas regras básicas. O uso da diversidade, fortemente recomendada, provém desta ciência.


A Ciência Política nos traz ingredientes sobre o equilíbrio e as questões de poder dentro do grupo. Em Action Learning, todos têm a mesma importância e oportunidade de participação dentro de uma sessão, independentemente de sua posição hierárquica ou poder fora deste contexto. Esta fluidez de poder é a base fértil para a conexão entre as pessoas, o desenvolvimento da confiança e o aprendizado.


Teoria de Sistemas, do Caos e Pensamento Complexo: Action Learning vai além das limitações do modelo cartesiano e da Física Newtoniana, usando o conceito de energia da teoria do caos e sistemas abertos. Os grupos são forçados a desenvolver pensamento sistêmico por meio do questionamento e diversidade de seus integrantes. Normas e pressupostos são questionados. Action Learning vai além da crença de que a solução de problemas é um processo linear: problema -> diagnostico -> solução planejada -> solução implantada -> problema resolvido. Ao contrário, está presente o princípio da simultaneidade, pois a pergunta e a mudança não são momentos separados, são simultâneos. A ideia de Kurt Lewin de pesquisa ação, presente em Action Learning, coaduna-se com o conceito quântico de que a observação já modifica aquilo que é observado. Desta forma, o problema se movimenta a partir da mudança de perspectiva do seu postulante, movimento este que leva mais próximo da solução. Como um móbile, ao mexer num elemento ou pedaço do problema, todo o sistema se modifica, já que estão interconectados.


Investigação apreciativa: David Cooperrider, ao criar esta abordagem, foi movido por uma questão: o que causaria o mesmo efeito poderoso que a bomba atômica teve, no campo humano, do ponto de vista positivo? A Investigação Apreciativa, segundo Cooperrider, é o estudo do melhor das pessoas e das organizações. Baseia-se na pergunta incondicional positiva; a atenção é dirigida para aquilo que está dando certo, o que motiva, energiza e fortalece. É esta energia que Action Learning mobiliza para resolver os problemas. Foco excessivo no gap tira a energia necessária para resolvê-lo.


Ética: Numa sessão de Action Learning, as pessoas percebem uma rede segura para trazer problemas que normalmente seriam jogados debaixo do tapete e manteriam o grupo em subdesempenho. Agendas ocultas ou políticas vem à tona, são trazidas à luz pelo diálogo elegante que acontece numa sessão de Action Learning, conduzida por um Coach preparado e qualificado.


Biologia: Conforme o ambiente se torna mais complexo e imprevisível, os organismos desenvolvem capacidade de adaptação e transformação para sua sobrevivência. Estas capacidades interagem com seus respectivos ambientes e produzem um caminho evolucionário único. Os organismos, assim como os grupos de Action Learning, têm habilidade para criar sua própria evolução. Todas as partes de um organismo precisam ser mobilizadas, da mesma forma que a metodologia leva ao aprendizado e evolução de toda organização à qual os grupos pertencem.


Antropologia: Action Learning é utilizado em todas as partes do globo terrestre, com a mesma estrutura e resultados, porque trabalha com o que é universal na humanidade, sem deixar de considerar as particularidades de cada cultura individual.

Destaquei aqui alguns pequenos recortes destas abordagens, e convido vocês a aprofundar e expandir esta visão de acordo com seus interesses.



Marina de Mazi

Coach, Facilitadora, SALC, Diretora Educacional WIAL Brasil

Acredito no desenvolvimento humano como caminho para um mundo melhor.

Contato: marina@wial.org.br



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TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA REVISTA COACHING BRASIL


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