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Action Learning: uma prática andragógica


"Ensinar não é transferir conhecimento,

mas criar possibilidades para a sua produção ou a sua construção."[1]

Paulo Freire

Fui uma estudante bastante aplicada e, como tal, sempre soube perfeitamente bem o meu papel: entender o conteúdo que os professores estavam expondo e reproduzi-lo sob demanda para “provar” o aprendizado.

Este processo foi sendo repetido por anos a fio e começou a dar sinais de “mau funcionamento” quando cheguei à universidade e minhas perguntas pareciam incomodar os mestres. Com a experiência profissional, a coisa piorou: a cada curso que eu fazia, a cada aula expositiva, minha dificuldade de permanecer atenta e acordada (!) se apresentava como obstáculo a ser superado.

Por que ao planejar suas aulas meus professores não aproveitavam a vasta experiência dos alunos? Por que nossos objetivos de aprendizagem não eram levados em consideração e estavam sempre em segundo plano, pois o objetivo do professor era “dar a matéria” do “conteúdo programático”? Por que por inúmeras vezes fui aluna em cursos que nos solicitavam leitura prévia apenas para descobrir que todo o conteúdo que eu havia lido seria repetido pelo professor em sua exposição?

Eu senti “na pele” (e, provavelmente, você também) o efeito de um modelo convencional de educação. Este modelo vem sendo objeto de análise de vários estudiosos da aprendizagem há muito tempo. Eduard Lindeman já fazia em 1926 uma distinção relevante sobre a educação convencional e de adultos: “Em uma turma de adultos, a experiência do aluno conta tanto quanto a do professor... Na educação convencional, os alunos se adaptam ao currículo oferecido, mas na educação de adultos os alunos ajudam a elaborar os currículos... a autoridade pertence ao grupo.”[2] Suas ideias influenciaram o trabalho de Knowles que, em 1973, publicava a primeira edição de “The Adult Learner”, elencando os princípios do que convencionamos chamar de andragogia:

  • Para adultos, a motivação para a aprendizagem surge da necessidade a partir de suas vivências. Desta forma, a organização de atividades de aprendizagem deve ter, como ponto de partida, um desafio ou problema real que precisa ser enfrentado.

  • O conteúdo programático de cursos para adultos não deve ser desenvolvido em torno de temas como estamos acostumados a ver na educação tradicional, mas sim em torno de situações da vida, uma vez que o foco da aprendizagem de adultos é a aplicação prática do conhecimento adquirido.

  • Para aprender, o adulto relaciona o conhecimento novo à experiência que acumulou ao longo dos anos. Por isso, a experiência deve ter papel central em qualquer metodologia que tenha por objetivo essa aprendizagem.

  • O adulto tem necessidade de se autodirigir. Sendo assim, o papel do “professor” é provocar a reflexão e o diálogo, para que o grupo vá construindo seu conhecimento.

  • Com o passar dos anos, as diferenças entre as pessoas se intensificam. Daí a relevância de planejar-se atividades que permitam e estimulem a participação de todos, respeitando suas diferenças.[3]

Os praticantes de Action Learning já devem ter percebido alguns pontos de intersecção entre essa metodologia e a abordagem andragógica. Vamos analisar cada componente do Action Learning frente aos princípios de aprendizagem de adultos.

O Problema

Não há Action Learning sem um problema, desafio ou projeto para o qual não existe uma solução óbvia ou conhecida.

Do ponto de vista da abordagem andragógica, o aprendiz adulto direciona seu interesse por aprender a partir de desafios e de situações da vida para as quais não tem uma resposta pronta. Na escola e na faculdade, infelizmente para nós, nossos professores não tinham o hábito de perguntar que dificuldades estávamos enfrentando a fim de nos mostrar como determinada disciplina poderia nos ajudar a resolver essas situações.

Ao convidar os participantes para compartilhar problemas reais, urgentes e importantes, o Action Learning dá foco ao que querem aprender, criando condições para que conhecimentos armazenados e experiências vividas sejam o trampolim para a geração de novos conhecimentos.

O Grupo

A solução de problemas é mais fácil quando contamos com outras pessoas e acessamos a inteligência coletiva. Quanto mais diverso o grupo de participantes de Action Learning, melhores serão as condições para exploração de vários pontos de vista, o que possibilitará que a solução encontrada seja muito mais completa e assertiva.

O grupo é recurso importante para a aprendizagem de adultos pois, por meio das experiências que seus membros trazem e compartilham uns com os outros, é possível catalisar a aprendizagem. Para Paulo Freire, o grupo de aprendizes adultos é conhecedor de seu contexto, de sua realidade e, portanto, a sua experiência é base para entender outras realidades.

Acessar a inteligência coletiva não era algo possível quando nossos professores consideravam suficiente palestrar sobre os temas em que eram especialistas.